Finanças Comportamentais e a Rentrée: porque o segundo melhor momento é hoje
Autor: Carim Habib
Em julho partilhei aqui uma reflexão intitulada “O melhor momento para investir foi ontem” onde sublinhei o custo invisível da inércia financeira. A ideia era clara: quem adia, perde. Hoje retomo esse ponto de partida – mas com um olhar para a frente. O ontem já não pode ser recuperado. O que está ao nosso alcance é o hoje. E setembro, com a sua energia de recomeço, é o momento ideal para transformar a pausa estival em ação concreta. A procrastinação, os dados históricos e a estatística dos mercados acionistas convergem na mesma conclusão: esperar é caro. A única forma de colocar o tempo a trabalhar a nosso favor é começar – agora. A tendência para esperar é profundamente humana. A disciplina das finanças comportamentais descreve este fenómeno em diferentes enviesamentos:
1) O viés do status quo (status quo bias) é a tendência para mantermos a situação atual, mesmo quando a mudança é claramente mais vantajosa. Perante várias opções, os indivíduos revelam uma preferência desproporcionada por simplesmente não agir;
2) O viés do presente (present bias) descreve a tendência humana para atribuir um valor desproporcionado a recompensas imediatas em comparação com benefícios futuros, mesmo quando estes são maiores e mais relevantes;
3) O market timing é o conceito (ou crença) em que é possível identificar de forma consistente os pontos ideais para entrar e sair dos mercados. À primeira vista, a ideia parece intuitiva: comprar quando os preços estão baixos, vender quando estão altos. No entanto, décadas de evidência empírica mostram que prever estes pontos de viragem de forma repetida é praticamente impossível – mesmo para investidores profissionais com acesso a modelos avançados e vastos recursos de análise.
Estes padrões não são exceções – são sistemáticos, e explicam porque mesmo investidores sofisticados adiam decisões cruciais.
A estatística do mercado acionista mundial confirma o erro de “esperar pelo momento certo”. Entre 2003 e 2022, o MSCI World, um índice acionista global que agrega mais de 1.300 empresas de grande e média capitalização em 23 países desenvolvidos, registou uma rendibilidade anualizada próxima de 8%. Um investidor que tenha permanecido sempre investido teria capturado esse efeito do juro composto; perder apenas os dez melhores dias desse período reduziria a rendibilidade para cerca de metade, e perder vinte desses dias anularia praticamente todo o ganho líquido. O detalhe mais relevante é que muitos desses “melhores dias” ocorreram após quedas abruptas – precisamente quando a tentação de sair ou adiar é maior. A espera que parece prudente traduz-se, com frequência, na exclusão sistemática dos momentos mais recompensadores.
Vale a pena analisar com maior detalhe este índice, que é tudo menos abstrato. O MSCI World replica uma carteira global que inclui, entre muitas outras, Apple, Microsoft, Amazon e Johnson & Johnson (EUA); Nestlé, LVMH, ASML, Novo Nordisk, Siemens, Jerónimo Martins, EDP, Galp, MBCP (Europa); e nomes da Ásia como Toyota e Sony (Japão), BHP Group e Commonwealth Bank of Australia (Austrália), AIA Group (Hong Kong) e DBS Group (Singapura). Não se trata de investir num país ou setor: trata-se de participar no crescimento agregado das maiores empresas do mundo, com composição e pesos que evoluem ao longo do tempo. A composição muda, os líderes mudam – a disciplina permanece.
Do ponto de vista estrutural, cada adiamento altera o caminho de acumulação possível. Não se trata apenas de perder algumas contribuições mensais, mas de limitar o efeito cumulativo dos juros compostos e do reinvestimento. É o que os académicos chamam de dependência do percurso (path dependency): a trajetória importa tanto como o destino. Adiar cinco anos um plano de investimento não reduz o resultado em cinco anos – reduz de forma desproporcional, porque elimina múltiplos ciclos de capitalização.
Se a procrastinação é um viés humano e o “timing perfeito” uma falácia estatística, a única resposta sustentável é a disciplina. Contribuições regulares, diversificação estrutural e custos controlados transformam a incerteza em rendibilidade consistente. A gestão indexada traduz estes princípios em prática: elimina a ansiedade de “quando investir” e assegura que o tempo, inevitável, trabalha a favor do investidor e não contra ele.
O ontem já não volta, mas o hoje está sempre ao nosso alcance. Setembro marca a rentrée do ano: novos ritmos, novas decisões, novos começos. É também a altura certa para transformar a reflexão em ação. Porque no investimento, como na vida, o segundo melhor momento é sempre agora.
Carim Habib
Convidamos-lhe a ler: O melhor momento para investir foi ontem.
Referências
- MSCI World Index (USD) Factsheet. https://www.msci.com/documents/10199/178e6643-6ae6-47b9-82be-e1fc565ededb
- Barberis, N. & Thaler, R. (2003). A Survey of Behavioral Finance. Handbook of the Economics of Finance.
- JP Morgan Asset Management. Guide to the Markets(2023).
- Bodie, Z., Kane, A., & Marcus, A. (2018). Investments. 11th Ed., McGraw-Hill.
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