O que têm em comum Novak Djokovic e o MSCI World?

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O que têm em comum Novak Djokovic e o MSCI World?

O que têm em comum Novak Djokovic e o MSCI World?

Autor: Carim Habib

 

Quem me conhece pessoalmente sabe que sou um grande fã de ténis. Infelizmente, não sou particularmente talentoso com a raquete – bem pelo contrário – mas sempre me fascinou a forma como este desporto combina exigência física, precisão técnica e uma dimensão psicológica constante. Dentro do court, cada ponto é uma batalha com peso próprio. Ganhar não depende apenas de força ou velocidade, mas de estratégia, concentração e, sobretudo, da capacidade de manter o controlo emocional sob pressão.  Sou também, sem hesitação, um fã incondicional de Novak Djokovic. Pela frieza com que compete nos momentos decisivos. Pela consistência em todos os pisos. Pela longevidade ao mais alto nível. E pela capacidade de se reinventar – mesmo quando já parecia ter atingido o auge. Para mim, Djokovic não é apenas o maior tenista da história. É, provavelmente, o atleta mais completo e implacável do desporto moderno (CR7 e MJ, perdoem-me – também sou vosso fã).

A propósito do arranque de Wimbledon 2025, não resisto a recuperar uma estatística pouco intuitiva, mas absolutamente central para perceber o que verdadeiramente distingue os campeões – no desporto e, por extensão, também no investimento. Ao longo da carreira, Novak Djokovic venceu cerca de 54% de todos os pontos que disputou. Um número que pode parecer modesto. Afinal, ganhar apenas ligeiramente mais do que metade dos pontos não transmite uma imagem de domínio avassalador. E, no entanto, foi esse número que sustentou uma das carreiras mais impressionantes de sempre: 24 títulos de Grand Slam, mais de 100 troféus ATP e o recorde absoluto de semanas como número 1 mundial. Mais curioso ainda: este padrão não é exclusivo de Djokovic. Rafael Nadal venceu cerca de 53,6% dos pontos que jogou. Roger Federer, 53,1%. Andy Murray, 52%. Nenhum deles ultrapassa os 55%. E, no entanto, todos marcaram indelevelmente a história do ténis. (As jovens estrelas emergentes como Jannik Sinner e Carlos Alcaraz ainda estão a construir esse track-record – veremos onde estarão dentro de 10 anos.) A explicação está na forma como o jogo é estruturado: nem todos os pontos têm o mesmo peso. Um ponto ganho no início de um set não tem o mesmo impacto de um break point convertido. Um erro num jogo já perdido pouco altera o resultado, mas um ponto bem jogado num tie-break pode valer um torneio. A excelência no ténis reside menos na perfeição estatística e mais na capacidade de vencer os momentos certos — e de o fazer repetidamente. O que distingue os campeões é uma ligeira vantagem, capitalizada com disciplina, foco e resiliência emocional.

Esse princípio aplica-se – de forma surpreendentemente semelhante – ao investimento. Investir num índice global bem diversificado, como o MSCI World, não implica prever todos os ciclos ou evitar todas as quedas. Pelo contrário: o investidor de longo prazo enfrenta volatilidade, drawdowns e períodos de frustração. Mas, tal como no ténis, não é preciso ganhar sempre. Basta ganhar mais vezes do que se perde – e manter esse diferencial de forma consistente. Os dados históricos são claros. Entre abril de 1970 e junho de 2025, o MSCI World gerou uma rendibilidade média anual de 9% em USD. Este número incorpora múltiplas recessões, crises geopolíticas, picos de inflação, colapsos bancários e até uma pandemia. Em cerca de 38% dos meses, as rendibilidades foram negativas. E mesmo nos anos positivos, o mercado registou, em média, quedas intra-anuais de cerca de 5%. Ou seja, há muitos “pontos perdidos” pelo caminho. Mas, como num jogo longo em cinco sets, o que conta é o resultado acumulado. Um exemplo simples ilustra bem o poder do tempo e do juro composto:

– A 7% ao ano, um investimento de 100.000€ transforma-se, em 30 anos, em mais de 760.000€.

– A 8%, ultrapassa 1 milhão.

– A 10%, aproxima-se de 1,75 milhões.

Pequenas diferenças de desempenho anual, acumuladas com o tempo, fazem uma enorme diferença – tal como a vantagem marginal de Djokovic se traduz, no final da época, em mais títulos, mais finais, mais recordes. Neste contexto, vale a pena falar de gestão ativa. Muitos gestores tentam “vencer o mercado” – ou, na analogia do ténis, ganhar uma percentagem maior de pontos. Mas fazê-lo de forma consistente é excecionalmente difícil. O mais recente SPIVA Scorecard (Year-End 2024) mostra que, num horizonte de 15 anos, 92% dos fundos de ações dos EUA ficaram aquém do S&P 500. Na Europa, 87% dos fundos ativos não superaram o seu benchmark no mesmo período. Ou seja, mesmo entre profissionais experientes, com acesso a dados e recursos de excelência, a vantagem sustentada é rara. A gestão indexada, com alocação global, custos reduzidos e uma filosofia de disciplina e permanência, oferece uma forma robusta de capturar a rendibilidade estrutural dos mercados. Funciona como o jogo de Djokovic: não tenta impressionar a cada ponto, mas foca-se em jogar certo, evitar erros grosseiros e manter a vantagem ao longo do tempo. E isso chega. 

Em suma: o que Djokovic e o MSCI World têm em comum é simples — constroem resultados extraordinários a partir de margens modestas, sustentadas com método e consistência. Nenhum domina o jogo em todos os momentos. Mas ambos sabem resistir quando perdem, e capitalizar quando ganham. E essa é, talvez, a lição mais valiosa – no desporto, nos mercados e na vida. Porque, tal como no ténis, investir com sucesso raramente depende de pancadas icónicas. Depende, sim, de manter o plano, resistir à volatilidade (e às emoções) – e deixar o tempo fazer o seu trabalho.

A pergunta é: o seu plano de investimento está preparado para cinco sets?

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Este texto não constitui uma recomendação nem consultoria para investimentos. A Dolat Capital presta consultoria para investimentos de natureza específica aos seus clientes, tendo por base, entre outras, o seu perfil de risco e objetivos financeiros. Rendibilidades passadas não constituem uma garantia de rendibilidades futuras.

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