O ouro como “ativo de refúgio”

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“O ouro é dinheiro. Tudo o resto, é crédito.”

A história ajuda-nos a compreender o presente, mas também a fazer escolhas acertadas para o futuro. Vamos então analisar dois períodos decisivos na história económica do sec. XX e que ainda determinam a atualidade.

O 1º é o caso de hiperinflação a que se assistiu na república de Weimar, designação da atual Alemanha, entre 1919 e 1933. Este fenómeno de hiperinflação poderá ser a raiz da obsessão Alemã em manter as contas públicas equilibradas e um nível reduzido de dívida pública face ao PIB. Com o intuito de financiar a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha determinou a suspensão do padrão ouro, podendo, assim, imprimir moeda sem limitações. 

Hoje, esta política é pratica corrente dos bancos centrais e denomina-se de expansão monetária. À época o governo Alemão acreditava que a conquista de novos territórios e o saque de recursos nos mesmos compensaria a pressão inflacionista e a consequente desvalorização da moeda. Hoje sabemos que este plano não teve o resultado pretendido. Adicionalmente, as duras condições decorrentes do Tratado de Versalhes, impostas à Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, levaram ao colapso da economia e do valor do Deutsche Mark (DM). Em 1919, uma onça de ouro valia 170 DM, e cinco anos mais tarde 87 triliões DM.

O 2º momento histórico decisivo, ocorreu em 15 de agosto de 1971, quando o Presidente Nixon, ainda durante o seu 1º mandato, reuniu na residência de férias em Camp David o seu staff económico mais próximo, onde pontificava Paul Volcker (posteriormente Presidente da FED), e anunciou o abandono do padrão ouro. Esta medida inicialmente de cariz provisório, tinha como propósito facilitar um processo de expansão monetária para financiar a guerra do Vietname.

Esta medida, persiste ainda hoje, dando a origem ao presente regime de flutuação livre entre as várias moedas. O preço do ouro, que até essa data estava fixado a $35 por onça, valorizou para $2 000 por onça em maio de 2020, o que corresponde a uma depreciação do USD de 98% face ao ouro.

Esta breve análise histórica permite-nos retirar algumas conclusões pertinentes:

1. Pese embora já ter decorrido um século, a depressão económica e colapso do DM em Weimar, deixaram um profundo trauma nacional que influencia fortemente o modelo económico da Alemanha contemporânea;
2. O USD mantém-se como a moeda pivot do sistema monetário internacional, no entanto, não representa uma reserva de valor de longo prazo;
3. Sem a segurança de convertibilidade da moeda em ativos reais, como o ouro, existe o risco de descredibilização total do sistema monetário.

Com a atual política de expansão monetária ilimitada em curso nas principais economias, existe o risco de uma descredibilização do sistema monetário global com base nas moedas fiduciárias, também denominadas como “moedas fiat”. Estas moedas não são convertíveis em ativos reais, sendo apenas uma promessa de pagamento emitida por um determinado banco central.

Em oposição, o ouro não pode ser impresso por nenhum banco central, sendo uma reserva de valor intemporal, atuando como proteção (hedge) natural contra a expansão monetária. Outra caraterística associada é a sua resiliência em períodos de elevada, o que o demarca de outros ativos considerados de refúgio (o JPY, o CHF ou Obrigações do Tesouro Americano) sendo o ouro, por essa razão, o ativo de refúgio de última instância, ou seja, The last man standing.

Finalmente, é característica do ouro, preservar uma correlação negativa com os mercados de ações e baixa correlação com obrigações. Em períodos de flutuação mais significativa dos ativos financeiros, o ouro mantém este comportamento, enquanto que as obrigações do tesouro tendem a verificar uma subida de correlação com ações.

Olhando para os casos históricos do Deutsche Mark e do USD e considerando o grau de incerteza extrema que paira sobre o futuro da economia mundial, finalizamos com o axioma de J.P. Morgan, fundador do banco que ainda hoje mantém o seu nome, ao afirmar em 1912: “Ouro é dinheiro. Tudo o resto é crédito”.

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